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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Beatles nas pistas

Grupo Easy Star's All Stars recriam clássico do Quarteto de Liverpool


Apesar de sua formação remontar ao ano de 1997, foi apenas em 2003 que o coletivo de reggae Easy Star's All Stars obteve reconhecimento mundial ao lançar seu Dub side of the moon, uma inventiva releitura, faixa a faixa, do clássico Dark side of the moon, do Pink Floyd, tramada por meio de intervenções eletrônicas e ritmos caribenhos. Em 2006, os Easy Star's repetiram a dose ao regravar OK computer, do Radiohead (se valendo do pseudônimo Radiodread!) e, agora, resolveram se apossar de nada mais nada menos que Sgt. Pepper's lonely hearts club band, dos Beatles.


Regueiros chegam ao terceiro álbum-tributo incrementando os arranjos com grooves.
Foto: Reprodução da capa do cd: Easy Stars lonely hearts Dub Band
No disco rebatizado como Easy Star's Lonely Hearts Dub Band (selo Coqueiro Verde), o grupo - Michael Goldwasser (guitarras elétricas e acústicas, percussão, sintetizador), Victor Ticklah Axelrod (teclados), Victor Rice (baixo) e Patrick Dougher (bateria, percussão) - convocou uma série de convidados especiais para assumir os vocais da gravação. Nos arranjos, não há nenhuma inovação radical ou pretensiosa, apenas a esperada argamassa de grooves e riddinsarregimentados no ska, no rocksteady, no dub e no reggae.

Aqueles que se dispuserem a ouvir o CD sem pruridos beatlemaníacos vão encontrar diversão garantida. Ex-vocalista de apoio de lendas jamaicanas como Lenny Hibbert e Gregory Isaacs, Junior Jazz abre o trabalho provendo a faixa-título com uma contagiante levada dançante, seguido de perto pelo grande Luciano (cantor de reggae influenciado por Stevie Wonder e pelo finado Dennis Brown), em uma releitura roots, recheada de metais para With a little help from my friends.

Como seria de se esperar em um trabalho movido por inspiração rastafári, as demais faixas do disco se sucedem de forma relaxada, sem sobressaltos. De resto, cabe ainda destacar as presenças do ícone da cena dancehall Frankie Paul, em Lucy in the sky with diamonds; do veterano Max Romeo em Fixing a hole; da improvisada dupla Bunny Rugs (vocalista do grupo Third World) e U-Roy (o rei do toast jamaicano, espécie de versão prototípica para o rap norte-americano) em Lovely Rita; e do genial Michael Rose (dono da poderosa voz que imantou os melhores trabalhos do grupo Black Uhuru) na conclusiva A day in the life.
Publicado no Diario de Pernambuco em 11/07/2010.
Baixe este álbum aqui (link retirado do blog Original Pinheiros Style).

Jimi Hendrix: Aprecie sem moderação

O guitarrista que incendiou os anos 1960 volta às lojas em edições luxuosas para álbuns clássicos


Há quem garanta que Jimi Hendrix não reinventou a guitarra apenas uma vez. Em cada gravação, era como se a aventura recomeçasse. "Nenhum outro roqueiro violou tantas regras enquanto satisfez tantas expectativas", observou o crítico norte-americano Dave Marsh. No fim da década de 1960, não à toa, o ídolo da contracultura ouviu a mesma pergunta inúmeras vezes: qual é o segredo? "Componho o que eu sinto. E é apenas isso", explicou, certa vez. Parecia simples. Mas, quatro décadas após a morte do criador, essa arte furiosa ainda guarda mistérios.

A era digital não resolveu o enigma nem aplacou o incêndio propagado por Hendrix. O que se nota é o oposto disso. A cada relançamento, o legado do músico volta a provocar assombro. Em 2010, essa herança ganha moldura luxuosa. A parceria entre a Sony e a Experience Hendrix L.L.C., empresa que administra a obra do músico (presidida por sua irmã, Janie), antecipa os tributos ao astro, morto em 18 de setembro de 1970, aos 27 anos.

Primeiro fruto desse matrimônio, a coletânea Valleys of Neptune (distribuída em março) frustrou os devotos mais exigentes com um apanhado de versões alternativas para faixas conhecidas. Já a segunda fornada de CDs, que acaba de chegar às lojas, não deixa impressão de mero oportunismo: trata-se da bem-vinda reedição dos clássicos Are you experienced, Axis: bold as love (ambos de 1967), Electric Ladyland, de 1968, e da compilação First rays of the new rising sun - que, lançada originalmente em 1997, reúne canções rascunhadas pelo músico nos últimos meses de vida.

As novas tiragens contêm documentários curtos em DVD, além de encartes caprichados, recheados de fotos e textos. Em todos os casos, o aspecto mais valioso é a criação de mestre, o estilo que rejeita retoques. Radiografar a trajetória do artista é uma das metas do projeto da Sony. A outra é reafirmar a genialidade do mito. Sobre isso, os fãs não discutem. "Jimi era um astronauta visionário, ele sempre olhou para o futuro", observa o multiinstrumentista Dillo D'Araújo, admirador desde a adolescência. "Ele deixou uma herança que até hoje é irretocável, por mais que a guitarra tenha passeado por outras paisagens e sonoridades. Sua música é a trilha sonora de um filme que se passa em 2099", acrescenta.

Carreira breve - Os textos que acompanham as edições comemorativas recriam a imagem de um astro "algo cherokee, um pouco afro-americano, inteiramente musical, guiado pela imaginação". Nascido Johnny Allen Hendrix, em 27 de novembro de 1942, o guitarrista de Seattle, Washington, logo recebeu outro nome: James Marshall. Seria apenas uma entre as tantas mutações que se prolongariam numa carreira tão breve quanto espetacular.

Mesmo em movimento acelerado, Hendrix percorreu trilhas tortas para chegar ao ápice. Dois anos antes da performance flamejante no Woodstock, onde subverteu o hino norte-americano, ainda passava como mera revelação da cena musical inglesa, apadrinhado pelo empresário Chas Chandler - ex-baixista do The Animals. Desde pequeno, Hendrix cultuava bluesmen como B.B. King, Muddy Waters e Buddy Holly. Depois de passar um ano como paraquedista no Exército norte-americano, trabalhou com bambas como Sam Cooke e Little Richards. Mas foi na "swinging London" que encontrou um lar.

Hey Joe, o primeiro compacto do trio The Jimi Hendrix Experience (formado ainda pelo baixista Noel Redding e pelo baterista Mitch Mitchell), ficou 10 semanas nas paradas inglesas, no início de 1967. As últimas canções foram gravadas no segundo semestre de 1970, quando o músico havia embarcado numa rotina alucinada de shows e sessões em estúdio. Morreu sufocado pelo próprio vômito, após tomar coquetel de álcool, soníferos e drogas. Um desfecho ruidoso, escandaloso, que, por algum tempo, ofuscou o essencial: a batalha que Hendrix travou para expandir as possibilidades do rock. Triunfo que, no reino das guitarras, ainda soa como um estrondo.

Relançamentos

Are you experienced (1967)

"Na música, provocou efeito semelhante ao Big Bang", compara o crítico norte-americano Dave Marsh, no encarte da edição comemorativa. "Nos dois casos, o mundo ainda está tentando absorver, organizar e encontrar o sentido de tudo o que aquele evento acarretou", explica. De fato, nenhum elogio é pouco para um disco que enterrou muitas das regras da música pop - e, de lambuja, inaugurou técnicas que transformaram a guitarra para sempre, com camadas de efeitos, distorções e solos. As influências vão do blues à psicodelia. O CD inclui os clássicos Purple haze, Hey Joe e Stone free, lançados originalmente em compactos.

Axis: bold as love (1967)

Resultado de uma torrente criativa, Axis: bold as love começou a ser rascunhado quando a estreia ainda estava na fase de conclusão. Passou apenas um ano entre as primeiras sessões de Hey Joe e o arremate de She's so fine. A ansiedade, no entanto, não arranhou o resultado. O tino pop do empresário Chas Chandler (ex-The Animals), que atua como produtor, destaca o momento feliz de um trio afinadíssimo. No caldo, Jimi incluiu referências ao universo da ficção científica, que cultuava. "Axis foi criado rapidamente, talvez para provar que Jimi não era um gênio de um álbum só", observa o crítico Jym Fahley, no encarte.

Electric ladyland (1968)

Lançado como álbum duplo, o monumental Electric Ladyland comprova a evolução de Hendrix como guitarrista e esteta do blues-rock. O músico que não se deixava domar por limitações de gêneros musicais radicaliza o espírito aventureiro. O blues ainda sustenta o transe melódico do guitarrista (como na jam Voodoo Chile), mas Hendrix passeia pelo rock de Nova Orleans (Come on), aprofunda a lisergia e presta homenagem a um dos seus grandes ídolos, Bob Dylan (All along the watchtower). Nem todas as provocações do mestre, porém, foram autorizadas: a capa original, enfeitada por um elenco de mulheres nuas, acabou vetada.

First rays of the new rising sun (1997)

Recriar o "álbum perdido" de Hendrix, que o guitarrista gravava nos últimos meses de vida, é o desafio do engenheiro de som Eddie Kramer. O trabalho, cuidadoso, faz por merecer o relançamento de luxo. Em 1970, Hendrix planejava lançar um disco duplo ou até triplo (o projeto, até determinado ponto, atendia por Strate ahead). A maior parte das canções foi gravada no verão de 1970, no Electric Lady Studio, em Nova York. Kramer encontrou faixas incompletas, que foram retocadas de acordo com recomendações que o guitarrista havia deixado na época. Entre os destaques, Ezy Ryder, inspirado no filme Sem destino, de 1969.
Publicado no Diario de Pernambuco em 11/07/10.