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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Anos 60: Crônicas sobre a era de paz e amor


O jornalista Mikail Gilmore disseca em 19 crônicas alguns dos mitos dos anos 60. Para ele, o sonho acabou pouco depois do Verão do Amor

José Teles

teles@jc.com.br

Já se disse que a história é algo que não aconteceu, contado por alguém que não estava lá. A dos anos 60 é ainda mais complicada, porque grande parte dos que estavam lá não consegue lembrar o que aconteceu. O livro, do jornalista Mikal Gilmore, Ponto final crônicas sobre os anos e suas desilusões (Companhia das Letras, 439 páginas, R$ 56), aponta com lucidez os holofotes para aquela década de guerras, ditaduras, mas também de hippies, Hell’s Angels, popstars, moldando um novo sonho americano. Envoltos numa espessa nuvem de fumaça, e em viagens cujo combustível tinha as siglas LSD ou STP.

Ponto final não é um livro definitivo sobre o assunto, até porque sua abordagem não é da década com um todo, mas de capítulos destas história, com um viés para a música que desempenhou um papel de destaque com Beatles Bob Dylan, Phil Ochs, Johnny Cash, Jim Morrison, Grateful Dead, Leonard Cohen. Sem esquecer os beats Ken Kesey, Allen Ginsberg, Jack Kerouac. Grande parte destes personagens vivia, ou viveu, em San Francisco. Gilmore dedicou um capítulo especial a Haight-Ashbury, bairro da cidade onde se localizava o epicentro do furacão hippie que iria influenciar toda uma concepção de vida, não apenas dos americanos, mas do mundo inteiro. Esta é, por sinal, a melhor parte do livro, que põe por terra o mito do “Verão do amor”, em 1967, em San Francisco.

A ida dos hippies para o bairro de Haight-Ashbury teve motivo prosaico. Deveu-se ao aumento dos aluguéis em North Beach, onde moravam várias das estrelas da geração beat. Lá estavam Ken Kesey, com o Warlock, depois Grateful Dead realizava as experiências com LSD, os lendários acid tests. “Hippie” era um termo pejorativo criado pelos beats, corruptela de hipster (no jargão beat, o cara antenado e contestador). Coincidiu de nesta mesma época surgir um intenso movimento musical em torno da Baía de San Francisco e bandas como o Jefferson Airplane, Country Joe & and the Fish, Big Brother and the Holding Company Quicksilver Messenger Service. Em 1967, a comunidade hippie já era ponto turístico. Uma companhia de bondes de San Francisco explorava a linha San Francisco/Haight-Ashbury District Hippie-Hop Tour. As intenções dos hippies eram as melhores possíveis, as drogas, nem tanto. Seu consumo em escala industrial apressou o fim do sonho, três anos antes que John Lennon denunciasse seu fim.

Em 1967, na comemoração do solstício de verão (o dia mais longo do ano), cerca de cinco mil pessoas celebraram com doses cavalares de STP (uma nova droga), e grande parte delas acabou nas clínicas de urgência de San Francisco. “Haight-Ashbury pode ter sido o maior laboratório de experimentos com drogas da América, mas ninguém o monitorava com objetividade. A escritora Joan Didion, no livro Slouching towards Bethlehem, conta ter encontrado uma menina de cinco anos, Susan, lendo uma história em quadrinhos, chapada de LSD, que há um ano a própria mãe lhe dava”. No final de 1967, lembra Gilmore, Haight-Ashbury havia acabado. E não apenas por causa das drogas, mas porque o país radicalizava-se politicamente. O ano de 1968 foi a ressaca do Verão do Amor. Porém, não foi uma experiência inócua. San Francisco deixou uma grande herança de música e ideais libertários que, de uma forma ou de outra, ainda influencia pessoas mundo afora.

Algumas das análises são tautológicas. Mikal Gilmore emprega outros termos para dizer a mesma coisa, isto sobretudo quando escreve sobre Beatles ou mesmo Bob Dylan, que já foram exaustivamente dissecados. Já em Johnny Cash, ele vai fundo na alma do atormentado cantor, que mais do que mudar a música country, exerceu um fascínio em seu compatriotas que durou até a sua morte, em setembro de 2003. Mikal Gilmore foca sua atenção mais nos Beatles do que nos outros personagens. Porém não diz nada que já não tenha sido dito sobre o quarteto inglês. De interessante, uma crônica sobre George Harrison (O mistério em George Harrison), que, com a dissolução dos Beatles, foi transformando-se no irmãozinho mais novo, o mais discreto do grupo, para ser venerado como gênio pop pelo álbum triplo All things must pass.


Uma década em que se cultuaram os outsiders

O melhor do livro, além do capítulo sobre o Verão do Amor em Haight-Ashbury, é quando se ocupa dos deslocados (ou outsiders), que se entregaram a um hedonismo destrutivo. O cantor folk Phil Ochs, o criador do jornalismo gonzo, Hunter S.Thompson, Jim Morrison e os Doors, Allman Brothers, Led Zeppelin, e o Pink Floyd, “pessoas que ajudaram a moldar uma época e um movimento”. A carreira dos Allman Brothers é mais uma tragédia sulista. O grupo foi extremamente bem sucedido até meados dos anos 70, mas teve uma carreira envolta em tragédias. Os irmãos Duane e Greg Allman eram crianças, quando o pai foi assassinado por um homem a quem deu carona. No auge da fama, Duanne Allman morreu, aos 24 anos, em um acidente de moto, em Macon, Geórgia. Um ano e duas semanas depois de Duane Allman, o baixista Berry Oakley morreu ao chocar sua moto contra um ônibus. O acidente aconteceu a poucos metros do local onde Duanne Allman acidentou-se. Além de problemas com drogas e brigas internas, o primeiro empresário da banda, Twiggs Lyndon, morreu ao pular de um para-quedas e não conseguir puxar o cordão para abri-lo. três anos depois, Lamar William, baixista que entrou no lugar de Oakley, morreu de câncer. O Sul mais uma vez perdia a batalha. A música inovadora do Allman Brothers, rotulada de rock sulista, acabou diluída e o Allman Brothers virou paródia de si mesmo.

Enquanto Jim Morrison adentrava a parte mais sombria do sonho americano, Johnny Cash foi um épico, personagem shakespeariano. Morrison foi uma síntese de todo talento e excessos dos anos 60. No livro, Gilmore ilustra os excessos de Jim Morrison com uma de suas trapalhadas: “Em 1968, Morrison apareceu bêbado num clube em que Jimi Hendrix tocava. No meio de um solo de Hendrix, Morrison se arrastou até o palco, se enroscou na perna do guitarrista e anunciou: “E quero chupar seu ...”. O ponto culminante da cena foi quando Janis Joplin subiu ao palco, partiu pra cima de Morrison, usando uma garrafa como porrete, e os três rolaram no chão, engalfinhados numa briga. Johnny Cash revolucionou a música country com um estilo próprio, voz inconfundível, grandes composições que o aproximaram de nomes como Bob Dylan. Dependente de anfetaminas e álcool, ele aprontou mais do que Jim Morrison. Duma feita, um incêndio provocado por ele quase acaba com um reserva florestal, na Califórnia.

Ao contrário de Jim Morrison, Cash foi ao fundo do poço, pelo menos duas vezes, e recuperou-se. Nos últimos anos de carreira, foi descoberto pelo produtor Rick Rubin e passou a gravar autores contemporâneos impensáveis para artistas country, a exemplo de Hurt, do Nine Inch Nails. Johnny Cash, um épico americano, morreu em conseqüência da diabete, aos 71 anos. Cash, Morrison, Hunter S.Thompson são fósseis de uma época que vai ficando cada vez mais distante. Não teriam vez num mundo, onde os jovens vivem cercado de computadores, videogames, malham, em que beber e fumar são hábitos de caretas ou, como escreveu Mikal Gilmore: “Uma coisa, no entanto, realmente mudou: hoje em dia a cultura nunca toleraria a idealização de um famoso consumidor de drogas ou bebidas como Jim Morrison. Recuperação (ou abstinência), não indulgência é hoje um padrão de vida”.


Publicado em 26.09.2010 no Jornal do Commercio.


5 comentários:

  1. Hello bro,

    happened to come across your blog accidentally.. such a nice blog. Its great to see such a great collection of a single genre here.. Thanks ..thanks a lot..

    Recent days (for the past 6 months) i have been hearing this genre of songs only. since i am from india i am not exposed to this type of music. But i finally searched knowledge about various genres of music and finally fell into psychedelic. I happened to hear a song "Aaromale" from an Indian movie. Its of psyschedelic genre. Its fusion. How do you like the song? "Its more original and doesn't have any shades of masters in this genre" - people says. I feel that it has shades of "dave mathews band" song.. hear and confirm if possible please.

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  2. Adorei o blog, estou seguindo :)

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  3. Tem como vcs disponabilizarem o livro para download pelo pdf? já procurei e não acho.

    Parabéns pelo blog, mt legal.

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  4. Olá, infelizmente não temos o livro em PDF.

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  5. Putz cara baita resenha descrevendo o emblemático rock sessentista e suas peculiaridades lisergicas e revolucionárias que serviu de fonte não só para estilos musicais mais para formas alternativas de vida!!!! indicação muito bem vinda valeu!!

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