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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Jumping Jack Flash e Beggars Banquet 40 anos

Entre os grandes discos que completam 40 anos neste 2008 merecem destaque o LP “Beggars Banquet” e o single “Jumping Jack Flash”, dos Rolling Stones. O ano anterior foi de completo desbunde para Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Bill Wyman e Charlie Watts com o álbum “Their Satanic Majesties Request”, o mais psicodélico da safra, de uma loucura bem maior do que “Sgt Pepper’s”, dos Beatles. À parte algumas grandes canções, como “She’s a rainbow”, “Citadel” e “In another land”, esta de Wyman, “Their satanic...” era um desbunde total.
A expectativa de fãs como eu era qual seria a próxima direção de banda, um descaralhamento total ou uma volta aos trilhos do blues, rock e R&B que tinham feito antes de maneira brilhante. A resposta veio em maio de 1968 com o single “Jumping Jack Flash”, rock do bom com aquela crueza típica da banda, um riff desdobrado do riff de “Satisfaction”, ambos antológicos, perfeitos, geniais. "Jumping Jack era o apelido do jardineiro de Keith Richards, que Jagger usou para dar nome ao personagem da letra.
Wyman reivindica a paternidade do riff nos livros autobiográficos “Stone alone” e “Rolling with the Stones”. Ele diz que o criou num órgão no estúdio, daí a banda o aperfeiçoou até o formato final que inclui guitarras passadas através de um gravador cassette da Philips para fazer o som ficar bem rudimentar. A letra fala de um personagem nascido num furacão de fogo, criado por um vagabundo barbado e sem dentes que foi à escola com uma correia atravessada nas costas e um cravo atravessado na cabeça. No lado dois, para fazer o contraste, a lírica balada “Child of the moon”, uma das mais bonitas da banda.
Com o single, os Stones iniciaram uma fase que se estenderia até 1973 com o produtor e percussionista Jimmy Miller (1942 – 1994), que tinha (e viria a ter) no currículo trabalhos com as bandas Traffic, Blind Faith, Spencer Davis Group, Plasmatics e Motorhead.
“Beggars Banquet” é essencialmente acústico, com violões incendiários e um acento country que dá a personalidade do disco. Nele está o original de um dos hinos da banda, “Sympathy for the devil”, um desdobramento do título do LP anterior, uma canção que associaria a banda a Satã/Lúcifer e a acontecimentos estranhos. No Festival de Altamont, quando houve um assassinato pelos Hells Angels (Anjos do Inferno) Jagger disse que alguma coisa estranha sempre acontecia quando eles tocavam “Sympathy for the devil”. Daí terem sido chamados por um tempo de suas majestades satânicas.
Isso se deve ao fato de Jagger encarnar Lúcifer na primeira pessoa numa letra em que o coisa ruim reivindica vários fatos históricos como a morte do czar Nicolau II e da princesa Anastásia na revolução comunista de 1917 na Rússia, afirma ter sido um dos generais de Hitler, diz que todo policial é um criminoso e compartilha com o ouvinte o assassinato dos Kennedy, John (presidente em 1963) e Robert (senador em 1968). A parte musical para a banda é um samba, influência de viagens de Mick e Keith ao Brasil para férias, mas para nós pode ser tudo menos isso. O filme “One plus one”, do cineasta francês Jean Luc Goddard, mostra a banda em estúdio ensaiando a música. O filme foi rebatizado como "Sympathy forthe devil" quando saiu em DVD para faturar em cima do nome da banda.
“No expectations” é um blues acústico com um violão slide tocado por Brian Jones, uma das últimas contribuições dele para a banda, já com a mente deteriorada pelas drogas e pelo comportamento desvairado que o impedia de fazer um esforço coordenado e concentrado no estúdio e ao vivo. Neste mesmo ano ele foi preso e processado várias vezes pela polícia numa fase em que as autoridades perseguiam os Stones. Outra grande interpretação é a de Nicky Hopkins ao piano, um virtuoso associado aos Stones por muitos anos e que vi no Brasil com Joe Cocker nos anos 70. Jagger faz um vocal primoroso sobre uma letra que fala na despedida de um amor que não deu certo.
“Dear Doctor” também fala de um amor errado – a noiva fugiu com um primo do noivo no dia do casamento - com um pedido de ajuda ao doutor para que tire do peito o coração esmagado, mas no final da música ele já pede o coração de volta porque tudo ficou bem. Jagger acentua a interpretação com um sotaque carregado enquanto os violões soltam faíscas.

“Parachute woman”, uma letra lasciva sobre mulheres dissolutas, também teve o recurso do gravador minicassete. Wyman tocou um baixo acústico sem trastes, Watts um tambor, Jagger percussão, Jones diversos instrumentos, incluindo uma cítara, tudo isso com os músicos em volta do gravador. Depois foi jogado em quatro canais para overdubs. “Eles estavam apaixonados por aquele troço, mas acabou ficando interessante. Fiquei fascinado,” disse o engenheiro assistente George Chkiantz citado no livro “It’s only rock and roll: The Rolling Stones song by song”.
“Jig saw puzzle” é um rock/blues em torno do piano de Nicky Hopkins com intervenções brilhantes de Keith na guitarra. Jagger destila uma letra inspirada sobre pessoas fora da lei e deslocadas na vida, entre elas a filha de um bispo, um gangster sanguinário que é um perfeito pai de família, 20 mil avós que queimam seus cartões de pensão e uma banda de rock com um cantor irritado por ser jogado aos leões, um baixista nervoso com as garotas do lado de fora (alusão a Bill Wyman, o maior garanhão da banda), um baterista perturbado por não manter o compasso e um guitarrista avariado (Brian?).

“Street fighting man” abria o lado dois do LP, uma canção afinada com os protestos de 1968 na França, nos Estados Unidos, os assassinatos de Robert Kennedy e Martin Luther King com um refrão totalmente conformista. “O que um garoto pobre pode fazer a não ser cantar numa banda de rock’n’roll”. Isso entre versos que falam que o verão chegou e é hora de se fazer a revolução e “vou matar o rei e todos os seus lacaios”. A canção gerou muita discussão naquele ano de posições polarizadas em que o partido internacional da juventude mostrava uma cara politizada dos jovens, chamados de yppies, em contraste com o pacifismo dos hippies. A parte musical teve a base gravada em cassete com Keith no violão e Charlie numa bateria pequena, partindo depois para overdubs que incluem uma cítara por Brian Jones.
"Prodigal son" é um gospel do reverendo Robert Wilkins que Jagger e Richards malandramente assinaram quando o disco saiu, mas depois foi corrigido. Os Stones o transformam num blues com violões pesados de Keith Richards e do convidado Ry Cooder e Brian Jones na harmônica. A fabula do filho pródigo da Bíblia com um toque de malícia dos Stones.
“Stray cat blues” é uma canção sacana sobre as groupies, as meninas que seguiam as bandas de rock e serviam de pasto para o apetite sexual dos músicos. “Aposto que sua mãe não sabe que você arranha desse jeito/ Aposto que ela nunca te viu gritar assim”, canta Jagger. Um rock abluesado e elétrico pontuado por uma guitarra bem aguda de Keith.
“Factory girl” fala de um cara esperando uma operária sair da fábrica, uma garota com manchas no vestido, com quem se pode tomar um porre no final de semana. Uma referência meio irônica à mulher do povo, que vive mal e sonha com uma vida melhor. Levada com violões e um violino agudo tocado por Rick Grech, das bandas Family e Traffic.
“Salt of the earth” é uma homenagem igualmente irônica às pessoas comuns, o sal da terra, numa letra que levanta um brinde a elas, mas as acha muito estranhas e irreais, como se não fossem de verdade. “Vamos beber aos milhões que precisam de líderes mas só conseguem a escória”, diz um verso. Keith começa cantando ao som de violão, a canção vai num crescendo instrumental e chega até um coral gospel.

O CD "Rolling Stones R.S.V.P." com 17 faixas é uma versão bootleg de "Beggars Banquet" com takes alternativos e cinco faixas que não entraram no lançamento oficial. Três delas estão ao lado na coluna "Escute e veja aqui": a instrumental "I'm a country boy", "Highway child" e "Stuck out all alone". Todas as faixas do LP oficial estão na coluna além de vídeos de "Jumping Jack Flash", "No expectations" e "Sympathy for the devil" do "Rock and Roll Circus", gravado para divulgar o disco mas só lançado em 1996 porque Mick Jagger odiou a performance da banda. É importante pela presença de Brian Jones, que seria expulso da banda em seguida e morreria em julho de 1969.

Jamari França
Publicado no Globo Online em 10/06/2008

3 comentários:

  1. ola,
    estou tendo problemas para extrair as musicas deste arquivo...
    sera que poderia checar o arquivo e se possivel me manda-lo pelo

    lused_@hotmail.com

    mesmo se nao for possivel adoraria receber uma resposta.
    Lucas

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  2. Olá, Lucas. Já temos um novo link, pois o antigo deu problema. Por favor, tente novamente. Se não conseguir, volte a entrar em contato. Um abraço.

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  3. hi there, it's me, amadeus from the http://dcshare.myblog.de/ ... wanna link my new other blog? its about spiritual music etc. ... I linked your blog too :)

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